“Dissecado” expõe o luto de um pai em sociedade que não permite perdão
5 mins read

“Dissecado” expõe o luto de um pai em sociedade que não permite perdão

 Romance de Aaron Salles Torres, com prefácio de Marcelo Rubens Paiva, aborda as dores do machismo estrutural. Lançamento acontece dia 5 de março, no Café Doce Lembrança, em Campo Grande (MS), às 19h

Um pai comete um erro irreversível com o filho. A partir desse acontecimento, “Dissecado”, romance de Aaron Salles Torres publicado pela Georgois Livros, mergulha nas complexidades da masculinidade e nas engrenagens de um sistema que transforma tragédia em espetáculo. Com prefácio de Marcelo Rubens Paiva, a segunda edição da obra será lançada em 5 de março, no Café Doce Lembrança, em Campo Grande (MS), às 19h.

A narrativa acompanha um pai que esquece o filho com deficiência no carro e as consequências que se desdobram a partir desse momento fatal. “Tanto o protagonista quanto todos os que o circulam quanto o narrador passam a ser não confiáveis, pois são homens sem hombridade e o narrador é influenciável”, pontua o autor.

Marcelo Rubens Paiva, autor de “Ainda Estou Aqui”, assina o prefácio da obra. No texto, ele define “Dissecado” como um retrato do “mundo cão”. “Marcelo leu ‘Dissecado’ em poucas horas e foi muito efusivo em seus comentários. Quando escreveu o prefácio, colocou o dedo na ferida sobre as questões sociais que o livro retrata”, celebra Aaron.

Inspirado por notícias que inundaram os jornais brasileiros sobre pais que acidentalmente causaram a morte dos próprios filhos, o autor se dedicou por três anos ao desenvolvimento da obra. “Fiquei comovido com essas histórias e me intrigou o fato de os protagonistas serem do sexo masculino. No decorrer do trabalho, fui bastante fiel à minha inspiração inicial e me aprofundei psicologicamente nesse universo masculino, que é profundamente encharcado de machismo.”

Para Aaron, o livro demonstra como é difícil ser homem e ser humano ao mesmo tempo. “Nossa cultura não permite que os homens acessem seus sentimentos, nem minimamente os elaborem ou muito menos os demonstrem. Conheço muito bem isso, porque sou homem e sinto diariamente as pressões a que sou submetido para me fechar em mim”, afirma. Essa impossibilidade de elaborar a dor leva o protagonista a devanear, a jogar a culpa sobre terceiros e a ser manipulado por outros.

Os personagens de “Dissecado” funcionam como engrenagens de um sistema maior. O legista, estrangeiro e meticuloso, tenta fazer seu trabalho com rigor mesmo sem recursos. O promotor surfa em tudo o que é conveniente e questionável. O pai internaliza o racismo a que é submetido e enfrenta um turbilhão de emoções contraditórias.

A radicalidade da estrutura narrativa se estende à própria linguagem do livro. A escrita de “Dissecado” reflete essa independência: a grafia não segue o Acordo Ortográfico de 1990. “É uma trapalhada que faz um desserviço a nossa língua. A população brasileira não lê por diversos motivos culturais, mas também porque não sabe ler. Esses acordos ortográficos apenas excluem ainda mais os cidadãos que tentam se orientar pela relação entre grafia e sonoridade, ou grafia e sentido (raiz da palavra).” De fato, o Acordo acabou por criar três normas ortográficas: do Brasil, de Portugal e dos países africanos que, apesar de terem assinado o Acordo, não o implementaram.

“O livro é um grande incômodo. A função da obra é permitir que cada leitor encontre onde exatamente é ou está sendo parte do problema. Com o fim de, se verdadeiramente quiser, ajudar a melhorar o rumo das coisas a partir de ajustes em seu próprio comportamento. Os discípulos de Pôncio Pilates nunca querem”, conclui o autor. Aaron tampouco esconde por que sempre trabalhou às margens das grandes editoras. “Tenho sido ignorado por elas talvez porque meu discurso ‘não interessa’. Logo, fundei a Georgois Livros”, afirma.

Sobre o autor: Natural de Três Lagoas (MS), Aaron Salles Torres formou-se na School of the Art Institute of Chicago (Belas Artes do Cinema) e fez MBA em Comunicações Integradas de Marketing pela Loyola University Chicago. É diretor, roteirista, escritor e letrista. Dirigiu o sitcom “Vai que Cola” e os longas-metragens “Quando o Galo Cantar pela Terceira Vez Renegarás tua Mãe” (2017) e “Nunca te Prometi um Mar de Rosas” (2026). Em 2022, fundou a Georgois Livros. É autor de “Inferno & Danação” (2022), “Dissecado” (2026) e “Debruçou-se” (2009).

Serviço

Lançamento do livro “Dissecado”

Data: 5 de março
Horário: 19h
Local: Café Doce Lembrança (Rua Dom Aquino, 2055 – Centro, Campo Grande, MS)
Classificação: Livre
Entrada: Gratuita

 

Paulo Queiroz
21967364634
[email protected]